Introdução
Um recente estudo da Airbus Corporate Jets (ACJ), com base em dados
da JETNET (fevereiro de 2025), revela que o Brasil ocupa hoje o segundo lugar
no ranking mundial de frotas de jatos executivos — atrás apenas dos Estados
Unidos. Essa constatação destaca tanto o crescimento do setor nos últimos
anos quanto os desafios e oportunidades para renovação de frota, políticas
regulatórias, infraestrutura e demanda por aviação executiva no país.

Dados principais do estudo

Há cerca de 24.442 jatos executivos (business jets) em todo o mundo.
Na América Latina e Caribe, são 2.975 desses jatos, o que corresponde
a aproximadamente 12% da frota global.
O Brasil possui 1.103 jatos executivos registrados, ficando atrás
apenas dos EUA, que têm cerca de 15.492 unidades.

https://www.acj.airbus.com/en/newsroom/web-story/2025-06-study-reveals-brazil-has-the-second-largest-business-jet-fleet-in-the?utm_source=chatgpt.com: ESTUDO DA AIRBUS: BRASIL COM A SEGUNDA MAIOR FROTA DE JATOS EXECUTIVOS NO MUNDO

Comparativo etário e de renovação de frota

A idade média da frota de jatos executivos no Brasil é de 18,4 anos, pouco abaixo da média global, mas bastante inferior à média latino-americana, que é de 24,5 anos

Alguns países latino-americanos têm frotas muito mais antigas; exemplo: México, com idade média de 30,5 anos, e Venezuela, com cerca de 39,1 anos. Isso acentua o potencial de renovação de frota nesses mercados. 

Fatores que explicam a posição do Brasil

Diversos fatores contribuem para que o Brasil ocupe uma posição de destaque no cenário global da aviação executiva. Um dos principais elementos é a sua geografia. O território brasileiro é extenso, com grandes distâncias entre centros urbanos e diversas localidades de difícil acesso por vias terrestres ou rotas comerciais regulares. 

Esse contexto geográfico favorece fortemente o uso da aviação executiva como alternativa eficiente para deslocamentos rápidos e seguros, especialmente por empresários, representantes do setor público, profissionais da saúde, executivos da mineração e outros setores estratégicos que necessitam de mobilidade ágil.

Além disso, o país conta com uma infraestrutura aeroportuária amplamente distribuída. Existem inúmeros aeródromos e pistas menores espalhados pelo território nacional, muitos dos quais não são atendidos por voos regulares de companhias aéreas comerciais. Essa característica permite que a aviação privada atue como elo de conexão entre regiões isoladas, oferecendo flexibilidade e autonomia que não seriam possíveis via transporte convencional.

Outro fator relevante é o perfil de demanda crescente por esse tipo de serviço. O aumento da população de alta renda, a expansão de negócios em cidades de médio porte, o avanço de empresas multinacionais e os projetos que requerem deslocamento ágil entre localidades distintas têm impulsionado a procura por jatos privados. A aviação executiva, nesse cenário, surge não apenas como um símbolo de status, mas como uma ferramenta estratégica de gestão e competitividade.

Por fim, destaca-se o potencial de renovação da frota brasileira. A idade média das aeronaves executivas no país é relativamente alta, o que indica uma janela de oportunidade para modernização do setor. A substituição de jatos mais antigos por modelos mais modernos, com melhor desempenho operacional, menor consumo de combustível e impacto ambiental reduzido, tem se tornado uma tendência crescente — alinhada às novas exigências de eficiência e sustentabilidade que pautam o setor da aviação em nível global.

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Desafios e pontos de atenção

Embora o cenário para a aviação executiva no Brasil seja promissor, há uma série de desafios que precisam ser superados para garantir o crescimento sustentável e eficiente do setor. Um dos principais entraves está nos altos custos operacionais, que incluem despesas com combustível, manutenção, taxas aeroportuárias e encargos regulatórios. Esses custos impactam diretamente a viabilidade econômica da operação de jatos executivos, especialmente em regiões mais afastadas dos grandes centros.

Outro ponto sensível é a complexidade do ambiente regulatório e tributário. A importação de aeronaves, a tributação sobre sua aquisição e operação, bem como as exigências para homologação e certificação, representam barreiras que podem desestimular investimentos e dificultar a renovação da frota. Além disso, a burocracia relacionada à infraestrutura aeroportuária pode atrasar projetos de expansão e modernização de terminais privados.

A formação e a disponibilidade de mão-de-obra especializada também representam um desafio. Pilotos, técnicos de manutenção, profissionais de logística e de apoio em solo precisam estar capacitados para lidar com tecnologias cada vez mais avançadas e com os altos padrões de exigência da aviação executiva moderna. A defasagem nessa qualificação pode comprometer a segurança e a eficiência operacional.

No que se refere à infraestrutura, embora o Brasil conte com uma vasta rede de aeródromos, muitos deles não oferecem as condições ideais para operar jatos executivos com segurança e conforto. Falta de pistas adequadas, serviços de navegação limitados, ausência de hangares e fornecimento irregular de combustível são obstáculos frequentes, especialmente em regiões mais remotas.

Por fim, a sustentabilidade tornou-se uma pauta inadiável no setor da aviação. A pressão por práticas mais responsáveis ambientalmente exige que os novos modelos de aeronaves sejam mais eficientes em termos de consumo de combustível e emissões. Além disso, cresce a demanda pela adoção de combustíveis sustentáveis (SAF), o que impõe a necessidade de investimentos em infraestrutura, logística e políticas públicas que incentivem essa transição energética.

Perspectivas e oportunidades

O mercado brasileiro de aviação executiva apresenta perspectivas promissoras, especialmente no que diz respeito à renovação de frota. Empresas e proprietários que operam jatos mais antigos tendem a considerar a substituição dessas aeronaves por modelos mais modernos, não apenas por uma questão de economia operacional, mas também por uma preocupação crescente com a imagem corporativa, eficiência e segurança. Aeronaves mais novas oferecem menor consumo de combustível, menor custo de manutenção e maior confiabilidade técnica, além de transmitirem uma imagem mais atualizada e profissional.

Diante desse cenário, tanto fabricantes nacionais quanto estrangeiros têm motivos para enxergar o Brasil como um mercado estratégico. O país apresenta grande potencial para vendas de aeronaves novas, serviços de manutenção, retrofit, personalização de interiores e atendimento pós-venda. Além da demanda natural por modernização, há espaço para o fortalecimento de cadeias locais de fornecimento e para a instalação de centros especializados em serviços técnicos e logísticos, gerando empregos e movimentando a indústria aeronáutica.

As políticas públicas também podem exercer um papel decisivo no desenvolvimento do setor. A implementação de incentivos fiscais, a simplificação de regras de importação, a atualização regulatória e o investimento em infraestrutura aeroportuária executiva são medidas que podem acelerar significativamente o crescimento do segmento. Com o apoio do Estado, o Brasil pode consolidar-se ainda mais como um polo de aviação executiva na América Latina.

Por fim, a sustentabilidade surge como um diferencial competitivo relevante. A adoção de aeronaves com melhores índices de emissão de poluentes, menor consumo de combustível e, especialmente, o uso de combustíveis sustentáveis (SAF) pode colocar o setor à frente das futuras exigências regulatórias internacionais. Além disso, esse alinhamento com as boas práticas ambientais pode ser um fator decisivo para empresas que buscam se posicionar como social e ambientalmente responsáveis, atendendo às expectativas de investidores, clientes e parceiros globais.

Conclusão

O estudo mostra que o Brasil não apenas consolidou-se como o segundo maior detentor de jatos executivos no mundo, mas que está em uma encruzilhada: entre manter o status atual ou avançar para um ciclo de modernização e expansão que pode trazer benefícios econômicos, logísticos e ambientais.

Para que o potencial se concretize, será necessário alinhamento entre políticas públicas, setor privado, infraestrutura, regulação e sustentabilidade. A posição de liderança atual traz visibilidade e responsabilidade — e pode impulsionar mais ainda o mercado de aviação executiva no Brasil.