IATA divulga projeção financeira, de SAF e gargalos para a indústria aérea global em 2026
A IATA divulgou recentemente sua mais nova visão sobre o panorama global da aviação para 2026, trazendo números expressivos e alertas urgentes sobre os desafios que se impõem ao setor. De acordo com a entidade, as companhias aéreas devem registrar um lucro líquido combinado de US$ 41 bilhões no próximo ano, superando a estimativa de 2025.
Apesar do recorde em lucro agregado, a margem líquida deve se manter estável em 3,9%, mesma proporção projetada para 2025. O lucro por passageiro transportado deve continuar em cerca de US$ 7,90 — valor inferior ao pico de US$ 8,50 registrado em 2023. Esse cenário sugere que, embora a demanda e o volume de operações sigam crescendo, os ganhos individuais por passageiro permanecem contidos, reflexo de custos elevados e estrutura financeira pressionada.
Paralelamente à projeção financeira, a IATA também atualizou suas estimativas para a produção de SAF. Espera-se que em 2025 sejam produzidas cerca de 1,9 milhão de toneladas — o dobro em relação a 2024 — e que o volume alcance 2,4 milhões de toneladas em 2026. Porém, mesmo com esse crescimento, esses números ainda representam apenas cerca de 0,8% do consumo global de querosene de aviação projetado para 2026.
Esse descompasso revela uma verdade incômoda: embora a oferta de combustíveis sustentáveis esteja aumentando, a escala ainda é insuficiente para atender à demanda real da indústria global de aviação — especialmente diante das metas de descarbonização até 2050. Segundo a IATA, o problema não está na disponibilidade de matérias-primas sustentáveis, mas sim nos gargalos da produção: tecnologias que demoram a se expandir, infraestrutura insuficiente, competição por biomassa e falta de apoio regulatório consistente.
Além disso, a adoção de SAF implica custos significativamente mais altos. Em 2025, o prêmio sobre SAF — ou seja, o quanto mais caro é em comparação ao querosene tradicional — já representa uma despesa adicional relevante para as companhias aéreas. Isso pressiona ainda mais a margem operacional, especialmente diante de outros custos crescentes, como manutenção, combustível tradicional, logística e encargos regulatórios.
Outro ponto crítico destacado pela IATA são os “gargalos estruturais” na cadeia de abastecimento e renovação de frotas. A demora na entrega de novas aeronaves e motores, combinada com escassez de peças e mão-de-obra especializada, limita a modernização das frotas — o que retarda ganhos de eficiência e dificulta a substituição de aeronaves mais antigas e menos eficientes. Além disso, a infraestrutura de produção e distribuição de SAF ainda é muito incipiente em várias regiões, o que dificulta a adoção em escala global.
Em síntese, o cenário projetado pela IATA para 2026 revela um setor aéreo que continua resiliente e lucrativo — embora operando sob restrições severas. A oferta crescente de SAF representa um passo importante rumo à sustentabilidade, mas os volumes ainda não acompanham a ambição de neutralidade de carbono. Para que o combustível sustentável deixe de ser uma exceção e se torne regra global, será necessário investimento maciço, apoio regulatório consistente e aceleração tecnológica. Sem essas mudanças, o uso de SAF deverá continuar sendo limitado, mesmo diante da urgência climática.